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Rita Diogo | O ano começou assim...

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Um novo ano que começa cheio de resoluções e promessas de novas atitudes. Um novo ano traz consigo o ano que termina, as coisas boas e as coisas menos boas do ano que finda. E assim é com 2022. Mais um ano de pandemia em que pagamos a fatura dos dois anos anteriores. A pandemia que nos trouxe vivências novas, contínuas adaptações, exigências várias e acima de tudo um grande isolamento social. Falamos menos uns com os outros, abraçamos menos, beijamos menos, estamos menos com os outros, estamos demasiado apenas com nós próprios. Está a perder-se a empatia, estamos a viver demasiadamente sós.

2022 começou da pior maneira. Foram noticiados os suicídios de duas jovens, de 16 e de 20 anos, duas jovens que não se conheciam, que viviam em locais diferentes, com histórias de vida que supomos diferentes mas, com igual sofrimento. Falamos de suicídio de jovens, colocando mais uma vez a saúde mental nas bocas do mundo. Sabemos que o suicídio é a segunda causa de morte mais frequente nos jovens entre os 15 e os 29 anos. Ficamos chocados, ficamos angustiados. Mas o que fazemos com o choque e com a angustia que sentimos? Sabemos o quão importante é a literacia em saúde mental, falarmos sobre nós mesmos, sobre o nosso mundo interior, é preciso que as pessoas aprendam coisas sobre elas próprias, aprendam a identificar aquilo que sentem. Somos todos um bocado analfabetos no que toca às emoções. Falamos pouco de saúde mental e entendemos pouco aquilo que sentimos, esta mistura pode ser explosiva, mais ainda nos tempos que vivemos. Restringimos os nossos contactos embora saibamos que as relações que estabelecemos com os outros nos ajudam a viver mais tempo e a viver mais felizes. Ainda existe um preconceito grande em relação à doença mental, ainda se escondem as doenças mentais que ainda se mascaram, não se fala sobre depressão tal como se fala de enxaquecas, ainda se vai mais ao neurologista do que ao psiquiatra, estar numa sala de espera de um consultório de psicologia ainda causa embaraço.

Sabemos que a depressão nas crianças e nos jovens existe e que causa um enorme sofrimento, poucas vezes partilhado e tantas vezes ignorado pelos adultos. Tende-se a achar que uma criança não tem motivos para estar triste e deprimida porque a infância é vista como um período de vida feliz. Na adolescência há uma maior perceção do sofrimento que pode advir do ajustamento necessário às várias mudanças que se enfrentam mas, este sofrimento tende a ser considerado como passageiro e pouco impactante. Não há culpa por sentir tristeza, não há culpa para o desespero. Na verdade, as crianças não só podem sentir grande sofrimento psicológico, como também podem experimentá-lo desde pequenas, e de forma intensa, pois possuem competências menos variadas e eficazes para lidar com aquilo que sentem, têm menos controlo sobre a sua vida e são mais vulneráveis. Igualmente, existe uma diferença significativa entre o desenvolvimento normativo, isto é, natural, de um adolescente e depressão que se apresenta como algo mais severo e disfuncional. É importante considerar as mudanças naturais associadas à idade e etapas de desenvolvimento, de modo a compreender as diferenças entre o normativo e os quadros clínicos. A principal diferença entre as alterações de humor e a perturbação depressiva é que esta última, devido à sua frequência e duração ao longo de diversos dias/semanas, interfere com o funcionamento da criança ou adolescente, em diversas áreas e contextos, perturbando o desempenho das sua atividades diárias. Não é uma fase, não passa nem melhora com o tempo. Exige tratamento e intervenções adequadas. Os comportamentos auto lesivos, a tristeza profunda, o desespero, o choro, as alterações de comportamento, a passividade ou a agressividade precisam de ser valorizadas, precisamos de ouvir, de falar, de estar próximos.

A promoção da saúde mental é cada vez mais necessária e fundamental. Continua a haver défice nas respostas ao nível do tratamento da doença mental, mas existe um défice muito maior ao nível das respostas de prevenção e promoção da saúde mental. As respostas comunitárias são praticamente inexistentes. É importante que se compreenda o sofrimento, que haja capacidade de escuta e empatia, que se observe o comportamento, que se esteja presente e, acima de tudo, que não se julgue.

Rita Diogo, Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde 

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