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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 19 - Novembro 2021

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JAIME MILHEIRO | OBLIQUIDADES (10)

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OBLIQUIDADES (10)

Uma entrevista televisiva, hoje, não vale pela informação. Vale pela estranheza do confessado.
Sem cadáveres “exquis”, não interessará a ninguém. Precisa de vulgaridade, desbragamento e má língua misturados com sangue, para que títulos obtenha e audiências propicie. Exige que se conte o que nunca se contou, que se levantem indiscretas insinuações sobre os alcances da concorrência, que se chorem lágrimas malévolas sobre as mentiras do dia, porque só isso vende.
Fizeram-me inúmeras pequenas entrevistas ao longo da vida. Nada prestam por isso mesmo. Instintivamente enjeitei confessionários. Cuidei das palavras e cuidei de mim, decidindo dizer apenas o meu próprio dizer...

                                       (Bastaram-me as confissões
                                    e penitências em Brantães,
                                    com o padre da freguesia...)

recusando muitas outras pela mesma razão.
Por outro lado, na iniquidade corrente avolumou-se o conceito de que frente a um
microfone será preciso rematar. Significa aparecer, ser alguém, ser o melhor da
vizinhança.
Só coxos o não farão, na atitude pobre de quem das conveniências não trata e nem
percebe que os exibicionismos/voyeurismos lhes engrandecem cofres e dimensões.
Mesmo apenas discorrendo sobre a cera dos ouvidos ou sobre os buracos do corpo...
                                       (Quem não exibe não espreita,
                                    excitado não fica...
                                    Se as pessoas só falassem do que sabem
                                    Haveria um profundo silêncio)

tal sofisticação tornou-se glória suprema, porque o mais importante será vender
anúncios e buscar clientela.
As imensas transformações da Net e os narcisismos daí resultantes transformaram-se
em perverso movimento. Abalaram quanto éramos, descontrolaram quanto se
pretendia.

Distorceram a clássica equação de que será melhor calar do que mal dizer, tornando-
se uma questão de Saúde Pública sem vacina no horizonte.

Dar sentido ao pensamento, promover responsabilidade, orientar autenticidades,
continua a ser possível mas a muito longo prazo, considerando os estragos obtidos. Só
quando as dores forem mais fortes do que o prazer a imaginação retrocede.
Da mediocridade das redes sociais e das caixas de comentários muitos políticos já
seguem os caminhos. Supõem-se aptos a alterar as essências da História e as raízes
da vida em imbecilidades expansionistas.
Invejosos de quem ao longo dos tempos se distinguiu, igualizam por baixo e ao serviço
das suas próprias obliquidades propagam ideias inúteis e confrangedoras...
                                                   (Teremos de os ouvir
                                                   sem deixar de ser quem somos.
                                                   Nem haverá outro caminho...)

na postura de quem pensa que o Universo começou consigo.
Os seres humanos jamais perderão o seu “sentimento de percurso” e o seu
“sentimento de história”, mesmo que porventura esqueçam.
É isso que os define.

JAIME MILHEIRO

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