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BAIÃO CANAL | Jornal N.º 7 - Maio 2021

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DUAS DE LETRA | Entre ontem e amanhã | Lourdes dos Anjos

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Lembro-me muito bem de ouvir o meu pai dizer que Salreu (a terra que foi seu berço e sua sepultura) era uma terra de viúvas de homens vivos porque por lá envelheciam as fêmeas parideiras enquanto os homens abalavam para o fim do mundo...para a Venezuela.

Lembro-me de o ouvir dizer que não era cigano para partir sem eira nem beira, deixando a mulher e as filhas, e chegar vinte ou trinta anos depois, com uma saca de notas para comprar umas terras e fazer uma casa grande mas...sem saber se as "suas mulheres" adormeciam à lareira chorando as dores do luto e acordavam cheias de noite, ao lado dos filhos "orfãos" ... seus herdeiros perante a lei.

Lembro-me que só muito tarde percebi o que o meu pai queria dizer...

Ele, que nunca partiu, viu crescer as filhas e nascer os netos mas nunca comprou quintas, nem fez palacetes.

Morreu em paz, cheio de amor, entre os meus braços (a sua filha mais nova), o abraço doce do seu neto mais velho e o beijo da minha mãe, agradecendo-lhe a vida que tinham construído enquanto lhe pedia perdão de não o acompanhar nesta última viagem porque não era capaz de sair viúva da igreja de onde saíra casada . Iria depois ao seu encontro quando a vida quisesse. Sei que eram "contratos" DELES que não eram gente de grande fé e desconfiavam das religiões reinantes. Conversas de vida que continuam a ser os seus segredos.

Deixou uma fortuna enorme feita saudade e lágrimas e, tal como era sua vontade, repousa na sua terra, no cemitério de Salreu.

Foi assim ONTEM.

HOJE, no meu país, partem os que se recusam ser os escravos dos novos tempos, com direito a diploma, um computador e um telemóvel de última geração e uma mala com rodinhas mais um bilhete comprado para um voo low cost.

Levam a vontade firme de se transformarem em ramos de enxertia sem raíz e sem chão.

Querem morrer longe deste covil de banqueiros e politiqueiros e empresários rafeiros e exigem ser cremados para não cheirar mal aos vindouros.

Como eu percebo esta geração de novos navegadores que recusam ser operários dum país em ruínas onde os senhores mesários das Santas Casas vivem com chorudos vencimentos mensais à custa de rifas e jogatinas mais uns favorzinhos dos amigos da Opus Dei e vão gerindo Hospitais e Creches e Lares e empresas de lavagem de cifrões como quem trata da associação dos bichinhos abandonados sem direito a fazer barulho depois das 22h.

Como eu percebo este desencanto, este pouco amor, este "viver onde calhar,e não voltar".

Depois dou comigo a pensar que amei tanto os meus avós e amo tanto os meus netos e não queria adormecer chorando de saudade dos meus amores vivos.

Depois penso que a minha geração que conseguiu uma reformita, mais uma casita, mais um carrito, mais uns trapitos que nos fazem parecer melhorzito...come e cala e esconde a sementeira que foi fazendo depois de abril ser mês e ter nome...e teme o senhor doutor malcriado, mais o senhor engenheiro enjoado, mais o enfermeiro que trabalha aqui e ali e acolá e fica mal dormido e mal disposto, mais o jovem que mete prá veia e ressaca fora de horas, mais a menina que amuou porque lhe negaram umas sapatilhas XPTO...

Entre toda esta amálgama de gente zangada com a vida e descrente do amanhã, que se habituou a ter tudo não sendo nada, restam os profissionais que guardam a velha alma portuguesa e são PESSOAS capazes de dar o melhor de si nos postos de trabalho que ocupam respeitando mas, algumas vezes, não sendo respeitados.

É urgente mudarem-se as bafientas mentalidades do quero, posso e mando, e abraçar o futuro, com esperança e humildade, repartindo as horas de paz e lutando sempre para que todos possamos ver no horizonte um PAÍS menos desigual, onde todos saibam qual é a COR DA SOLIDARIEDADE.

Acredito que ainda será possível multiplicar o amor vezes sem fim, entre gerações que se encontram para cumprir a missão de sermos menos desiguais e mais felizes. Por isso:
Lembrar-me -ei sempre dos rostos e das mãos que , exemplarmente, me mimaram na minha meninice tão cheia de primavera.

Lembrar-me-ei sempre das palavras doces que tantas pessoas , tantas vezes, comigo partilharam, apesar do enorme cansaço em dias de tempestade.

Nunca esquecerei que ,há gente que, tal como os meus pais, nunca serão gente rica de bens materiais, mas são PESSOAS que sabem sorrir para os outros enquanto limpam as lágrimas do seu próprio sofrimento.

ONTEM, caminhei sem destino entre meninos tristes e mães sem esperança, e penso que ajudei a semear esperança e verdade.

HOJE tento sorrir mesmo chorando as dores da velhice que já me veste, e continuo , com humildade, a pensar que vale a pena ter a alma limpa e as mãos abertas para quem precisa de afetos puros.

Lourdes dos Anjos

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