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BAIÃO CANAL - Jornal

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MARIA ODETE SOUTO | Natal em prisão domiciliária

Odete Souto

Escrevia eu, na minha anterior crónica, a propósito da minha família e da casa da minha Mãe “nunca passei um único Natal fora desta cozinha e da minha família de raiz. Não sabia como fazê-lo e não me faria sentido. E não vai ainda ser este ano que isso vai acontecer. Está lá a semente e o sentido de Natal: Família. Só partiu a minha Mãe, mas, mais uma vez, ficou a sua obra e a sua memória. Para ela, como para nós, Família é um valor maior. É aquela que nos tocou, mais a que fomos construindo. É afeto. É amor. Mais uma vez, seremos muitos naquela cozinha que tanto nos diz e que nos une. O maldito vírus que teima em isolar-nos não levará a melhor. Todos testados, não vá o diabo tecê-las, lá estaremos a celebrar o Natal.”

Pois é, caros e caras leitor@s, enganei-me. A vida é uma grande incógnita e pregou-me mais uma grande partida. O maldito vírus levou mesmo a melhor e isolou-me. E esta, hein? Logo este ano…

Mas, há muito, muito tempo, a vida já me tinha dado grandes lições. Já me tinha ensinado que aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes, se é que gostamos de nós e de viver. E eu gosto!Amo demais a vida para entregar as pontas de qualquer forma. Vai daí, soube como fazê-lo.

Passo a explicar. No dia 20, como todas as segundas-feiras, ao fim do dia, lá fui eu à farmácia emprestar os buracos do nariz para serem escarafunchados por mão especalizada e analisado, devidamente, o respetivo “ranho”, para, esperava eu, receber uma declaração de que tinha testado negativo, para poder visitar a minha sogra, na Unidade de Cuidados Continuados. Terminada a operação, feita com mestria, e depois da espera do resultado do reagente é vaticinado o resultado: positivo.

Ora eu, habituada que estou ao “positivo” na escola, coisa banal e sem grande esforço, não gostei nada daquela notícia. Podia ter ficado a lamentar-me? Podia. E se havia ano em que esta “pancada mais” era dispensável era este. Mas, logo me veio à memória o velho ditado, “quem o cu a um cão tem que beijar não tem que lhe esperar”. Portanto, vamos a isso.  Ainda me perguntaram se precisava de alguma coisa e se prontificaram a colaborar com o que fosse necessário. Gente boa!

Não sei se de “ó morcom”, ómicrom, delta, ou o que quer que fosse,foi-me dada “ordem de prisão domiciliária”, como medida cautelar.

Chegada a casa fiz os contactos devidos. Primeiro, com aquele que se “acostava comigo todos as noites” e que passou a ser o meu vizinho mais próximo: quartos, wc, tudo separado. É que na mesma operação, realizada horas antes, ele tinha testado negativo e havia uma hipótese, ainda que remota, de que não estivesse infetado. Depois, informação a quem poderia ter sido contacto de risco e à Saúde 24.

A linha da Saúde 24 estava congestionada, mas lá atenderam ao fim de cerca de meia hora. E sim, minha gente, esta coisa funciona. Na manhã do dia seguinte fui contactada por uma enfermeira da Unidade de Saúde Familiar a que pertenço, por uma médica da minha área de residência oficial e pela minha medica de família. E todos os dias seguintes, sem exceção, fui contactada pela minha enfermeira de família.Gente boa e eficaz. Felizmente, não tive grandes sintomas e não precisei de nada de especial.

Tinha eu escrito que não iria passar o Natal longe da minha família e nem saberia como fazê-lo. Pois é. A vida apronta-nos e só temos duas hipóteses; ou deixamos cair os braços e ficamos a lamentarmo-nos; ou então, olhámo-la bem de frente e dizemos: É comigo? Vamos lá!

E assim foi. Confinada entre quatro paredes, com o meu cara-metade como vizinho mais próximo, no quarto em frente e comendo à vez, durante os primeiros dias, não fosse o vírus tecê-las.

Mas já tinha tecido. A separação foi tardia e o vírus tinha feitas das suas. Um novo teste e, afinal, o “bicho mau” também o tinha atacado. E com força. Alteramos a relação de vizinhança e voltamos a ser o que somos, com livre circulação dentro de casa.

Assim se passaram 10 dias de prisão domiciliária. E dizem que foi Natal, que se festejou o Solstício de Inverno… Eu dei um Viva à Vida, à Amizade, à Família e à Liberdade, pós 10 dias de prisão.

Das coisas boas, que é aquilo que devemos aproveitar da vida. Grata ao SNS, que funcionou, nas pessoas que me atenderam de forma carinhosa, pronta e profissional. Grata à minha Família, que ficaram sem a minha presença física e sem o cabrito e o anho assado por mim, mas que sempre se fazem presentes. Grata aos meus Amigos e às minhas Amigas, à família de afetos que fui construindo ao longo da vida e que são de uma importância extrema. E como diria a minha Mãe, o que é importante é ter força para encarar as agruras da vida. Confesso que ainda consegui dar algumas gargalhadas com aquelas Amigas que me foram ajudando a passar o tempo.

Grata, profundamente grata, a todos e todas que foram sabendo da condição de isolamento e se prontificaram a ajudar em tudo o que fosse preciso. E ajudaram. Alguns e algumas nem têm noção do quanto ajudaram. AMIGOS/AS.

Ah, como eu gosto deste conceito tribal e desta forma de estar na vida! Fica tudo muito menos penoso e muito mais fácil.

Ah! Não vou agradecer ao vírus a mansidão com que me afetou, mas ainda um dia registo a patente do tratamento. É ditado antigo. “avinha-te, abifa-te e abafa-te”. Com coisa de qualidade, acrescento eu.

Cuidem-se e tratem-se bem. Com as coisas boas da vida.E aproveitem-na!

Que 2022 arrume com o ó morcon, perdão, ómicrom, e com todos os outros vírus que por aí andam e que nos matam ou vão matando todos os dias. E roubam-nos vida e liberdade.

Um brinde à vida!

 

Maria Odete Souto

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